O desafio dos nossos dias...

19
Ago 11

 

História do Baleeiro da Ilha do Pico


    Aquele dia, em São João, amanhecia claro e à medida que o sol subia para os lados das Lajes, o verde das vinhas e do milho destacava-se por entre o negrume das pedras.

Os homens já se dirigiam para as terras para sachar milho, apanhar batatas ou bater tremoço.

As mulheres preparavam na cozinha o almoço de sopas de bolo, papas de milho ou batatas com peixe.
    De repente o sinal de baleia fez tudo mover-se a um ritmo mais acelerado.
Os homens largaram o sacho ou o alvião no lugar em que estavam, abandonaram a burra presa pela corda do freio à parede e correram para o porto, enquanto as mulheres lhes preparavam e alcançavam a saca com a comida.
Arriaram os botes e foram pelo mar fora, até que desapareceram no horizonte.

Depois de navegarem à vela algum tempo, avistaram a baleia.

Era um "espamarcete" pra cima de cem barris de óleo.
    Gerou-se grande reboliço nos botes.

É que uma baleia daquelas dava uma ânsia muito grande: não era só o dinheiro que ela representava, mas também o prazer de uma grande batalha vencida.

Tiraram a vela e puseram-se a padejar.

A baleia voltou a mergulhar para aparecer mais fora.
    No bote que conseguiu pôr-se em posição primeiro, o trancador, curvando o corpo e fixando o olhar, atirou o arpão certeiro.

A alegria e a confusão foi geral.

Mas a baleia, ferida e doida de dor, levou a primeira celha de linha, levou a segunda e, antes da ponta da linha sair da celha, o trancador, que era um latagão forte, agarrou-a a amarrou-a ao tronco.

Lá foi amarrado à linha pelo mar fora enquanto os demais baleeiros ficaram sepultados num silêncio de morte.

Só o oficial dizia: "Não! Não!"
    Não havia ainda gasolinas, havia mais 3 ou 4 botes por perto, passou-se palavra e toda a tarde procuraram com tristeza o "cadáver".

Até os outros deixarem de balear.

Não podendo fazer nada, voltaram ao entardecer para terra.
    A chegada ao cais não teve a alegria do costume e as discussões sempre tão fortes entre os baleeiros não se ouviram.

A família vestiu-se de luto e toda a santa noite as vizinhas choraram e carpiram de dor enquanto os homens contavam em voz baixa e dolente casos que tinham vivido com aquele forte homem.
    No outro dia saíram alguns botes à procura, por descargo de consciência, do corpo do trancador para que lhe dessem enterro digno.

Depois de muito andarem, começaram a avistar, ao longe, um negrume no mar e foram para lá.
Sobre a grande baleia, já morta, estava o baleeiro, de pé, encostado ao cabo do arpão fincado no toucinho do animal.

Como se nada tivesse acontecido disse:

 "Agora é que vocês chegam?

Tenho tado aqui toda a noite à espera!"

e fumava um grosso cigarro, embrulhado em casca de milho, como se estivesse sentado à mesa.

da net

publicado por emcontratempo às 11:42

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