O desafio dos nossos dias...

19
Set 11

 

"O conhecido sociólogo e filosofo francês, Jaques Amaury, professor na
Universidade de Estrasburgo, publicou recentemente um estudo sobre "A crise
Portuguesa", onde elenca alguns caminhos, tendentes a solucioná-la.

Portugal atravessa um dos momentos mais difíceis da sua história, que terá
que resolver com urgência, sob o perigo de deflagrarem crescentes tensões e
consequentes convulsões sociais.
Importa, em primeiro lugar, averiguar as causas. Devem-se sobretudo à má
aplicação dos dinheiros emprestados pela CE para o esforço de adesão e
adaptação às exigências da união.
Foi o país onde a CE mais investiu "per capita" e o que menos proveito
retirou. Não se actualizou, não melhorou as classes laborais, regrediu na
qualidade da educação, vendeu ou privatizou a esmo actividades primordiais e
património que poderiam hoje ser um sustentáculo.
Os dinheiros foram encaminhados para auto-estradas; estádios de futebol;
constituição de centenas de instituições publico-privadas, fundações e
institutos de duvidosa utilidade; auxílios financeiros a empresas que os
reverteram em seu exclusivo benefício; pagamento a agricultores para
deixarem os campos e aos pescadores para venderem as embarcações; apoios
estrategicamente endereçados a elementos ou a próximos deles, nos principais
partidos; elevados vencimentos nas classes superiores da administração
publica; o tácito desinteresse da Justiça, frente à corrupção galopante e um
desinteresse quase total das Finanças no que respeita à cobrança na riqueza,
na Banca, na especulação, nos grandes negócios, desenvolvendo, em contrário,
uma atenção especialmente persecutória junto dos pequenos comerciantes e
população mais pobre.
A política lusa é um campo escorregadio onde os mais hábeis e corajosos
penetram, já que os partidos, cada vez mais desacreditados, funcionam
essencialmente como agências de emprego que admitem os mais corruptos e
incapazes, permitindo que com as alterações governativas permaneçam,
transformando-se num enorme peso bruto e parasitário. Assim, a monstruosa
Função Publica, ao lado da classe dos professores, assessoradas por
sindicatos aguerridos, de umas Forças Armadas dispendiosas e caducas,
tornaram-se não uma solução, mas um factor de peso nos problemas do país.
Não existe partido de centro, já que as diferenças são apenas de retórica,
entre o PS (Partido Socialista)  que está no Governo e o PSD (Partido Social
Democrata), de direita, agora mais conservador ainda, com a inclusão de um
novo líder, que tem um suporte estratégico no PR e no tecido empresarial
abastado. Mais à direita, o CDS (Partido Popular), com uma actividade
assinalável, mas com telhados de vidro e linguagem publica diametralmente
oposta ao que os seus princípios recomendam e praticarão na primeira
oportunidade. À esquerda, o BE (Bloco de Esquerda), com tantos adeptos como
o anterior, mas igualmente com uma linguagem difícil de se encaixar nas
recomendações ao Governo, que manifesta um horror atávico à esquerda, tal
como a população em geral, laboriosamente formatada para o mesmo receio.
Mais à esquerda, o PC (Partido comunista), vilipendiado pela comunicação
social, que o coloca sempre como um perigo latente e uma extensão inspirada
na União Soviética, oportunamente extinta, e portanto longe das realidades
actuais.
Assim, não se encontrando forças capazes de alterar o status, parece que a
democracia pré-fabricada não encontra novos instrumentos.
Contudo, na génese deste beco sem aparente saída está a impreparação, ou
melhor, a ignorância de uma população deixada ao abandono, nesse fulcral e
determinante aspecto. Mal preparada nos bancos das escolas, no secundário e
nas faculdades, não tem capacidade de decisão, a não ser a que lhe é
oferecida pelos órgãos de comunicação. Ora, aqui está o grande problema
deste pequeno país; as TVs, as Rádios e os Jornais são, na sua totalidade,
pertença de privados ligados à alta finança, à industria, ao comércio, à
banca e com infiltrações accionistas de vários países.

Ora, é bem de ver que com este caldo não se pode cozinhar uma alimentação
saudável, mas apenas os pratos que o "chefe" recomenda. Daí a estagnação que
tem sido cómoda para a crescente distância entre ricos e pobres.
A RTP, a estação que agora engloba a Rádio e TV oficiais, está dominada por
elementos dos dois partidos principais, com notório assento dos
sociais-democratas, especialistas em silenciar posições esclarecedoras e
calar quem levanta o mínimo problema ou dúvida. A selecção dos gestores, dos
directores e dos principais jornalistas é feita exclusivamente por via
partidária. Os jovens jornalistas, são condicionados pelos problemas já
descritos e ainda pelos contratos a prazo determinantes para o posto de
trabalho, enquanto o afastamento dos jornalistas seniores, a quem é mais
difícil formatar o processo a pôr em prática, está a chegar ao fim. A
deserção destes foi notória.
Não há um único meio ao alcance das pessoas mais esclarecidas e por isso
"non gratas" pelo establishment, onde possam dar luz a novas ideias e à
realidade do seu país, envolto no conveniente manto diáfano que apenas deixa
ver os vendedores de ideias já feitas e as cenas recomendáveis para a
manutenção da sensação de liberdade e da prática da apregoada democracia.
Só uma comunicação não vendida e alienante pode ajudar a população a fugir
da banca, o cancro endémico de que padece, a exigir uma justiça mais célere
e justa, umas finanças atentas e cumpridoras,  enfim, a ganhar consciência e
lucidez sobre os seus desígnios."

publicado por emcontratempo às 10:27

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